JER: identidade, criatividade e novos caminhos na música

Entrevista

JER: identidade, criatividade e novos caminhos na música

Baiana radicada em Toronto, artista apresenta It’s Not a Joke no dia 30 de outubro.

por Pedro Silva27 de outubro de 2026

Baiana radicada em Toronto, a cantora, compositora, produtora musical e artista multidisciplinar JER constrói uma trajetória marcada pelo diálogo entre diferentes culturas, linguagens artísticas e possibilidades sonoras. Sua identidade criativa transita entre as raízes brasileiras e a experimentação contemporânea, aproximando referências da música popular brasileira de texturas eletrônicas e novas abordagens de produção.

No dia 30 de outubro de 2026, a artista lança It’s Not a Joke, seu álbum de estreia pela INFR Records. Com oito faixas, o trabalho representa um momento importante de afirmação artística, reunindo músicos de diferentes trajetórias em uma produção que explora os encontros entre instrumentos acústicos, percussão, sintetizadores e programação eletrônica. Coproduzido por JER e João Leão, o disco também conta com a participação de nomes como Chibatinha, Antonio Neves e Pupillo, além de uma mixagem assinada por Mark Lawson, colaborador do Arcade Fire, e masterização de Justin Gray, vencedor do Grammy.

Às vésperas desse lançamento, conversamos com JER sobre identidade, pertencimento, liberdade criativa e os caminhos que a levaram a desenvolver uma sonoridade própria entre a Bahia e o Canadá. Mais do que apresentar um novo trabalho, a entrevista busca compreender a visão artística por trás dessa trajetória e as possibilidades que se abrem para seus próximos passos.

A música popular brasileira carrega uma história muito rica de ritmos, tradições e reinvenções. O que a MPB representa para você hoje, e como surgiu a ideia de aproximar essas referências de elementos eletrônicos, sintetizadores e novas texturas sonoras?

Acredito que a música brasileira, como qualquer outra, sofre diariamente as influências do tempo. E acho que, dentro desse contexto, sempre me senti livre para experimentar elementos sonoros que desconstruíssem um pouco aquilo que a gente entende como MPB.

A MPB se consolidou nos anos 1960, num período de muita transformação política e cultural no Brasil, e teve um papel importante de pertencimento e resistência durante a ditadura. Mas a música brasileira é muito mais ampla do que esse momento histórico.

Eu nasci no interior da Bahia, então minha relação com a MPB passava muito pelo universo musical dos meus tios. Claro que fui influenciada, até por osmose, por sons de outras gerações, muitos dos quais adoro. Mas minhas influências também são muito contemporâneas.

Vejo uma nova geração de artistas brasileiros reconstruindo esse lugar de pertencimento, criando uma música mais híbrida, que consegue dialogar com outras culturas sem necessariamente perder suas particularidades.

Para mim, a eletrônica é mais uma possibilidade dentro dessa linguagem. Não vejo por que determinadas referências sonoras precisariam permanecer associadas a uma época ou a uma estética específica.

Eu não me considero uma artista da MPB. Eu me considero uma artista global. E acho que essa é uma liberdade muito importante para o meu processo criativo.

Você nasceu na Bahia e construiu sua trajetória artística em Toronto. Como viver entre esses dois contextos culturais transformou sua maneira de compor, produzir e enxergar a música brasileira? Você sente que a distância também mudou sua relação com suas próprias raízes?

Eu sinto Toronto como uma cidade que permite brincar de puzzles criativos.

É uma cidade que te oferece um pouquinho de cada coisa, como outras grandes metrópoles, Rio e São Paulo, por exemplo. Mas aqui, pela presença tão forte da imigração, existe uma experiência cultural muito viva, muito direta.

Você passa por um carro ouvindo punk rock, depois por um bar etíope de onde sai uma música que talvez nunca tenha ouvido antes. As comunidades estão muito presentes no cotidiano. Você não precisa sair procurando essas referências. Elas estão acontecendo ao seu redor.

Penso na salsa, por exemplo, e em como ela se transformou em cidades como Nova York, a partir do encontro de comunidades latino-americanas e suas diferentes tradições musicais. Pessoas criando coisas novas em um contexto cultural que também não era exatamente o seu lugar de origem.

Acredito que o Global Bass faz parte desse movimento e que esse tipo de linguagem tende a crescer justamente por causa desses encontros.

Para mim, Toronto é um pouco como entrar numa Babilônia de possibilidades. Você observa tudo acontecendo ao seu redor e, com sua própria linguagem, seu pertencimento cultural e tudo aquilo que já absorveu artisticamente, começa a reciclar essas informações e criar coisas novas.

Minha origem baiana faz parte de tudo isso. Não é algo que preciso recuperar toda vez que crio. É uma linguagem que já carrego comigo e que vai se transformando nesses encontros.

É um caldeirão de possibilidades. Eu amo isso!

Além de cantora e compositora, você também é produtora e trabalha com diferentes linguagens artísticas. Quando está criando, o que vem primeiro: a voz, uma ideia musical, uma textura sonora ou uma imagem? E como você decide quando uma música precisa de mais elementos e quando o silêncio ou a simplicidade são mais expressivos?

Grande parte da minha criação vem do meu mood, do meu estado emocional. Acho que tudo começa no subconsciente e, em algum momento, encontra uma forma de se manifestar.

Às vezes é uma melodia que começo a cantarolar do nada. Penso: “Nossa, isso é bonito!”, gravo e depois aquilo se transforma em música.

Outras vezes, tudo começa pelo ritmo. Sou muito, muito fissurada em ritmo, em groove. Pode ser uma batida, uma linha de baixo, alguma coisa que tenha aquela pulsação. Às vezes pego algo que já escrevi e coloco em cima. Outras vezes nasce tudo de uma vez.

Não existe uma receita. Preciso ser impulsionada por algum acontecimento, alguma experiência ou sentimento. Tenho muitas coisas para dizer e muitos sentimentos para entender, mas a criação, para mim, é espontânea.

Não consigo simplesmente sentar e decidir: “Hoje vou escrever uma música sobre uma casa abandonada”. Não funciona assim comigo.

Na produção, existe um lugar de conexão entre gostar e não gostar, criar mais dinâmica ou simplesmente dizer menos. Tudo depende da obra e de como você quer ser ouvido.

É um processo cheio de reciclagens. Às vezes você cria uma coisa e, no dia seguinte, percebe que precisa limpar, retirar elementos, reorganizar. Esse senso crítico está muito ligado à sua própria estética musical.

E acho que as referências são fundamentais. Na adolescência, fui muito influenciada por artistas que hoje fazem parte do meu repertório de escuta. Então, quando estou trabalhando com um produtor, posso dizer: “Sabe aquela guitarra do The Clash que começa assim?”.

Essas referências ajudam a comunicar aquilo que você está imaginando. Porque produzir também é aprender a traduzir suas ideias sonoras para uma linguagem que outra pessoa consiga compreender e desenvolver junto com você.

Seu trabalho reúne músicos e colaboradores com trajetórias e referências distintas. Como você equilibra sua visão pessoal com as contribuições de outras pessoas durante o processo de produção? Existe algum momento em que uma colaboração faz você abandonar uma ideia inicial e descobrir um caminho artístico que não imaginava?

Quando eu realmente abandono uma ideia inicial para descobrir um caminho artístico que não imaginava, esse novo caminho precisa ser melhor do que aquilo que eu estava pensando, né? Não se trata de mudar simplesmente porque alguém propôs uma coisa diferente.

Já passei por várias situações em que precisei abandonar um projeto e retomá-lo de outra forma, num lugar mais neutro. Isso envolve investimento de tempo, relações e parcerias, mas às vezes é necessário.

Quando você é um artista solo, por mais colaborativo que seja o processo, no final é você quem vai assumir a responsabilidade pessoal pelo trabalho. É o seu nome, sua visão artística e suas escolhas que estarão ali.

Por isso, acho muito importante existir uma conexão verdadeira com o produtor ou com quem você está compondo.

Não precisa ser melhor amigo, nem conhecer a pessoa há anos. Basta existir uma admiração mútua: “Eu gosto do que você faz, você gosta do que eu faço. Então vamos criar alguma coisa juntos”.

E, acima de tudo, é preciso maturidade.

Acho que a maturidade do ego é uma das coisas mais importantes para uma colaboração artística. Você precisa estar aberto a enxergar o trabalho pela perspectiva do outro, sem perder completamente a sua própria visão.

Às vezes você tem sorte e tudo se encaixa naturalmente. Outras vezes precisa ceder, negociar, abandonar alguma coisa para que uma ideia melhor consiga aparecer.

Colaborar é respeitar o trabalho do outro da mesma maneira que você espera que ele respeite o seu.

Em uma indústria musical cada vez mais orientada por algoritmos, tendências e pela necessidade de conquistar atenção rapidamente, como você protege sua liberdade criativa e decide o que faz sentido para sua própria linguagem artística? Você acredita que encontrar uma identidade musical autêntica exige, em algum momento, aceitar o risco de não ser compreendida imediatamente?

Acho que uma das maiores vontades do artista independente hoje é poder ter liberdade para explorar possibilidades.

A realidade de construir uma carreira artística é completamente diferente de 50 anos atrás, quando você precisava de um estúdio para gravar um disco e grande parte das decisões estava nas mãos das gravadoras.

Hoje temos muito mais autonomia para produzir e publicar música. Mas, ao mesmo tempo, surgiu outra forma de dependência, que é a relação com as plataformas de streaming e os algoritmos.

Sou muito crítica a esse modelo. Acho que essa lógica dos números beneficia principalmente as plataformas e acaba criando uma ansiedade enorme para o artista, que sente necessidade de estar fabricando conteúdo o tempo inteiro.

E aí a gente começa a esquecer da qualidade e do tempo que uma obra precisa para existir.

Eu sou super a favor do disco. Sou super a favor das histórias contadas, do tempo que se leva para apurar uma ideia, experimentar e construir algo que tenha significado.

Acho que muita coisa que está por aí é descartável, e precisamos começar a fazer uma curadoria melhor daquilo que consumimos.

Não acho que o valor de uma obra deva ser determinado apenas pela quantidade de pessoas que ela alcança ou pela velocidade com que isso acontece.

Por isso, um dos meus projetos de vida é justamente contribuir para uma cena artística independente mais sustentável. Uma cena em que os artistas tenham autonomia não apenas para criar, mas também para fazer suas obras circularem.

Para mim, existe uma questão fundamental nisso tudo:

Separar o direito de publicar da necessidade de ser escolhido por alguém para ganhar visibilidade.

Porque conquistamos uma liberdade enorme para produzir música, mas ainda precisamos questionar quem controla a maneira como essa música chega às pessoas.

JER: identidade, criatividade e novos caminhos na música — Unglued