
Entrevista
The Melties: a força do rock autoral que vem do ABC
A banda revisita sua história, compartilha bastidores da criação e reforça a importância da música autoral.
Há mais de uma década na ativa, a The Melties construiu sua trajetória dentro da cena autoral do ABC Paulista apostando em uma identidade própria e em um som que transita naturalmente entre diferentes influências do rock. Com origem em Santo André e uma formação que reúne experiências distintas, a banda segue renovando sua essência sem perder as raízes.
Nesta entrevista para a Unglued, conversamos sobre a história da banda, o processo criativo, a força da cena independente do ABC, as referências que moldam o grupo e os próximos passos dessa caminhada.
Quem faz parte da formação atual e qual o papel de cada integrante?
Temos a AnaLee, que é a nossa vocalista e linha de frente. Menina forte e que está cada vez melhorando mais em diversos aspectos da arte. Falamos mais dela lá na frente.
O Arthur é o guitarrista, que já rodou por diversas bandas pelo ABC e tocou um tempo na cena cover da capital paulista.
Macci é o nosso baixista, pintor e mentor. Também teve forte influência na cena autoral do ABC com outras bandas.
A Thizzy, batera, puxa a energia da banda e também traz um pouco de sinergia e serenidade entre os outros três loucos.
A ideia da banda, em qualquer formação, sempre foi mesclar a energia do masculino com o feminino: dois como um, yin e yang, pela força dessa parede sonora.
A banda surgiu em qual cidade?
A banda é de Santo André, formada pelo casal Macci e Thizzy como mais uma forma de expressar sua fúria através da arte. Podemos dizer que somos do continente ABC, afinal todos os membros que já passaram pela banda têm um pezinho aqui.
Para quem ainda não conhece a Melties, como vocês apresentariam a banda?
A The Melties está na ativa desde 2013, com quatro trabalhos divulgados ao longo dessa jornada. A gente já participou de alguns eventos com o Vespas Mandarinas lá atrás, no programa do Clemente e também no Autoral FM da Kiss.
O nosso som passa por uma mistura de gêneros que todos os membros, até os que já não estão com a gente, sentem no momento da criação. Daí vem esse "Meltie", uma palavra que nem existe na língua inglesa, mas acaba traduzindo legal essa fusão alternativa entre Punk, Metal, Grunge, Blues e Pop.
O som alternativo define melhor o que a gente é, apesar de cada álbum ser indefinido como gênero.
Vocês são todos do ABC ou cada integrante vem de uma cidade diferente da região?
Pode dizer que sim. A AnaLee, nossa vocal, é de São Paulo, mas foi criada em São Bernardo, assim como o nosso guitarrista. O casal da seção rítmica é de Santo André, onde acontecem os ensaios e a maioria dos encontros.
O ABC sempre foi referência de peso se comparado à capital, sempre foi e sempre será. Santo André segue como a principal força desse nosso "continente". Os melhores rolês acontecem por aqui: Blackbird, 74 Club, Apostrophe e Green Skull.
O rock dos anos 90 parece estar presente em várias músicas da Melties. O que essa década representa para vocês?
Os anos 90 foram a convergência do melhor que foi surgindo no cenário pop até aquele momento. O rock era pop. Ali, no período de um ano, você teve alguns dos melhores lançamentos de Red Hot Chili Peppers, Nirvana, Soundgarden e Pearl Jam.
Isso conversa bastante também com onde estávamos naquele momento, sendo influenciados pelos sons dos nossos pais ou nos rolês de skate e sendo expulsos da escola (alguns fatos sobre os membros da banda). Era só ligar o rádio e você tinha uma influência forte e boa.
Bem diferente de hoje. Temos muito mais bandas, e de excelente qualidade, mas para garimpar acaba sendo um achado mesmo.
Apesar das referências, a banda soa bastante atual. Como vocês equilibram influências e identidade própria?
Acredito que cada membro da banda tenha como banda de cabeceira uma das quatro grandes: The Ramones, The Beatles, Motörhead e Black Sabbath. Se juntar isso com Elvis Presley, você tem toda a estrutura da música pop do século.
Além de cada um já trazer a bagagem do que pode ser chamado de "rock clássico" hoje em dia, a gente está sempre antenado e apoiando a cena por aí. Tem bastante gente bacana que nos influencia: Tropical Worms, Giant Jellyfish, Red Sun Lord, Lorena Tá com Fome e Idade da Pedra, por exemplo.
Mas a gente também acaba bebendo de algumas fontes mais underground dentro do que foram os anos 90 e 50. Algumas bandas esquecidas das rádios, como Stone Roses e Sonic Youth, aparecem bastante na nossa playlist.
O segredo é se manter fiel às suas raízes, mas não se fechar para o novo. Tem momentos da vida em que você precisa de algo forte como um whisky, mas vai ter aquelas duas horas acompanhado de um amor e um vinho. Tem que dosar. Existe música boa e música ruim, ponto final.
O processo de composição parte de quem geralmente — letra, melodia, riff?
Nunca vem de um membro em específico. Acaba não sendo responsabilidade de um ou de outro, mas todos ajudam.
Como na construção de um prédio, às vezes surge um riff lento por horas e horas, ou uma melodia assobiada no banheiro, um croqui. Levamos para o ensaio na "Melties House", onde acontecem nossas reuniões nessa Batcaverna, e acontece a terraplanagem.
Definimos o tempo, a duração, o que tirar e o que adicionar, guitarra ou um baixo mais trabalhado. A letra vem junto com o que cada um vem vivendo no momento. Os andares vão subindo.
A mesma música pode falar de traição e angústia, como pode homenagear um amigo em comum. Se um colega sente dificuldade numa frase, o outro ajuda com o que vem sentindo no momento.
A nossa vocalista interpreta no palco, pintando o prédio, e temos uma música.
Essas influências vão além da música? Filmes, literatura e artes também entram nas composições?
Sem dúvida. Arte por toda parte e, como dizem, a vida sem ela seria um engano. É o que nos faz escapar da droga mais letal de todas, que é a realidade.
O Macci já é conhecido pelos seus quadros, enquanto a Thizzy se arrisca na dança. A AnaLee é uma atriz de mão cheia e o Arthur ajudou a fundar a seção de sopro de uma das torcidas organizadas do São Bernardo.
Todo mundo está envolvido em algo além da música, e isso ajuda a não viciar esse caldeirão. Abrir horizontes ajuda a expandir a mente.
Algo em comum que todos compartilham, além da música, é a literatura. Recentemente, dois livros que caíram na boca dos artistas fizeram parte dessa construção: "O Ato Criativo: Uma Forma de Ser", da lenda Rick Rubin, e "Roube Como um Artista", que ajudaram a entender as raízes que compõem os quatro elementos em comum na The Melties.
Como é a cena alternativa do ABC hoje, na visão de vocês? Tem espaço? Tem público?
Tem, sim! O ABC segue firme e forte e o pessoal entre as bandas se ajuda muito.
Temos alguns amigos, como citamos lá em cima (procurem eles!). Falando das casas, o Blackbird é a nossa casa!
O Anderson, dono, é um guerreiro e está sempre na luta para divulgar o pessoal, ajudar nos eventos, criar drinks em homenagem às bandas e indicar no Coletivo Rock ABC. Então você sempre pode esbarrar com a gente nesses "picos".
A gente, internamente, prefere pagar para ver um autoral ruim, em processo de crescimento, do que um cover bom. Ali você tem a verdadeira expressão do ser como arte através da música. A criação tende a melhorar com a experiência do indivíduo.
Vocês já passaram por festivais da região do ABC. Como essas experiências ajudaram no amadurecimento da banda?
Sim, a gente já rodou por alguns nesses treze anos.
O pós-pandemia foi bem difícil para a gente, com a saída de alguns membros, mas assim que encontramos um novo guitarrista e uma nova vocalista já nos sentimos prontos para a rotina de banda de estrada novamente.
O pessoal aqui é bem experiente. Afinal, tocar na noite é uma grande faculdade. Saber lidar com dono de bar, imprevistos com equipamento e os perigos de sair pela noite paulista com o carro cheio de equipamentos te calejam para tocar numa banda forte como a The Melties.
Há alguma história divertida ou curiosa sobre a banda?
Era uma apresentação na Feira da Pompeia, em 2016. A Thizzy estava separando os instrumentos para o show, mas, ao invés de colocar o baixo no case, colocou a guitarra.
Chegando lá, o Macci percebeu a troca. Sem ter o baixo, o namorado da vocalista foi procurar ajuda pelas ruas do festival.
Voltou dizendo que conseguiu ajuda: um homem iria buscar o baixo na casa dele, que era próxima, e já voltava.
O show já estava na hora e o Macci pegou a guitarra mesmo, e começamos.
Já com o show rolando, aparece o homem com o baixo. E, para surpresa de todos, era o Luis Carlini, que inclusive elogiou o som e disse que estava ótimo, mesmo com a guitarra fazendo o papel do baixo.
Por fim, a vocalista da época agradeceu no microfone ao Sr. Luis pela solidariedade ao emprestar o baixo.
Quais são os próximos passos da Melties?
A gente está no final da composição do nosso próximo EP, ainda sem nome. Estamos pensando na pré-produção. Mesmo tendo todos os nossos trabalhos assinados pelo Danilo, do Acústica, estamos interpretando nossas criações ainda.
A ideia é lançar no segundo semestre deste ano e vamos convidar nossos amigos para as festas, as bandas que citamos acima. Também queremos participar de todos os festivais que aparecerem por aí.
Como dizia Tim Maia: "Viemos trazer música boa para essa festinha mequetrefe".
Fica aquele discurso chato, galera: fortaleçam o autoral! Às vezes você ajuda uma banda que tem um som bem parecido com aquela que você curte e nem existe mais. Use uma camisa estilosa ao invés de uma réplica e ajude um músico a sobreviver nessa loucura que é a nossa sociedade.
