
Notícia
A Alquimia Popular Brasileira de Jorge Ben Jor
Alegria como patrimônio nacional
Na noite de 17 de outubro de 2026, às 19h, no Nubank Parque, em São Paulo, um dos maiores nomes da música brasileira mostrou que algumas coisas não envelhecem: o suingue, a poesia, o amor e a capacidade de fazer milhares de pessoas sorrirem ao mesmo tempo.
O clima era amistoso, quase familiar. Antes mesmo de Jorge subir ao palco, a discotecagem já preparava o terreno com clássicos da MPB, passeando por diferentes gerações e estilos. Nas arquibancadas, o estádio lotado cantava, dançava e, em determinados momentos, em clima de eleição, gritava “Lula”. O público era diverso, reunindo desde jovens até senhores e senhoras, todos compartilhando a mesma energia. Havia uma atmosfera de festa popular, daquelas em que a música deixa de ser apenas entretenimento e se torna uma espécie de linguagem comum entre desconhecidos.
E que privilégio poder testemunhar isso diante de um artista como Jorge Ben Jor.
Nascido no Rio de Janeiro, Jorge Duílio Lima Menezes, o Jorge Ben Jor, é um dos compositores mais originais e influentes da música brasileira. Sua data de nascimento, inclusive, é motivo de uma curiosa controvérsia biográfica: embora o próprio artista afirme ter nascido em 1945, pesquisas documentais apontam para 1939. Considerada essa última data, ele está com 87 anos — e a vitalidade demonstrada no palco torna o número ainda mais impressionante.
Desde o lançamento de Samba Esquema Novo, em 1963, Jorge ajudou a reinventar a música brasileira ao misturar samba, rock, soul, funk e ritmos afro-brasileiros em uma linguagem que é só sua. Seu violão percussivo, suas melodias imediatamente reconhecíveis e suas letras que transitam entre futebol, amor, espiritualidade e cotidiano abriram caminhos que seguem influenciando artistas dentro e fora do país.
Uma curiosidade interessante é que Mas, Que Nada!, lançada em seu álbum de estreia, ganhou projeção internacional e se tornou conhecida mundialmente, especialmente por meio das gravações de Sérgio Mendes. Décadas depois, uma nova versão de Sérgio Mendes com o Black Eyed Peas apresentou a canção a outra geração. Outra curiosidade está em A Tábua de Esmeralda, de 1974, álbum que mergulha na alquimia, no hermetismo e em referências filosóficas. Por trás de músicas irresistivelmente dançantes, existe um compositor com um universo intelectual e espiritual fascinante.
O show começou a desenhar essa trajetória com Jorge da Capadócia. A canção soou como uma espécie de portal para o que estava por vir: espiritualidade, força e aquela mistura particular de solenidade e balanço que só Jorge consegue entregar. Era o início de uma noite que não precisava de grandes artifícios para conquistar o público. Bastava a música.
Na sequência, A Banda do Zé Pretinho, com o refrão de Salve Simpatia incorporado à apresentação, ajudou a colocar o estádio no clima da festa e a elevar a energia do público. O título parecia resumir não apenas a canção, mas o próprio espírito do encontro. Jorge tem essa capacidade rara de transformar carisma em experiência musical, sem precisar forçar a interação ou recorrer a discursos grandiosos. Sua presença basta.
Logo depois, Santa Clara Clareou foi um daqueles momentos em que o estádio pareceu suspender o tempo. Uma música linda, luminosa, que ganhou uma dimensão especial naquele ambiente coletivo. Há canções que funcionam muito bem nos fones de ouvido, outras que crescem no rádio. E existem aquelas que, diante de milhares de pessoas, revelam uma força completamente diferente.
A banda merece um destaque à parte. Extremamente competente, segura e entrosada, sustentou as nuances do repertório com precisão, sem sufocar a personalidade do protagonista, que conduzia o espetáculo empunhando sua guitarra. O suingue exige muito mais do que tocar as notas certas: é preciso compreender o espaço entre elas, encontrar o balanço e deixar a música respirar. Acompanhando Jorge, os músicos demonstraram exatamente isso.
Em um dos medleys, que reuniu Santa Clara Clareou, Zazueira e A Minha Menina, foi impossível não pensar nos Mutantes quando começou esta última, que o grupo gravou e ajudou a eternizar em outra dimensão da música brasileira. A composição de Jorge atravessa essas fronteiras com naturalidade, conectando o samba ao rock e mostrando como sua obra dialoga com movimentos musicais que, à primeira vista, poderiam parecer distantes.
A sequência trouxe ainda Que Maravilha, Magnólia e Ive Brussel, ampliando a variedade de ritmos e atmosferas do repertório. Quando o show mergulhou nas composições associadas a A Tábua de Esmeralda, a apresentação alcançou alguns de seus momentos mais especiais. Magnólia reafirmou a singularidade de um disco que parece existir em um universo próprio. A atmosfera mística e sofisticada dessas composições evidencia como Jorge consegue unir referências complexas a uma musicalidade acessível, envolvente e genuinamente popular.
E a emoção também teve lugar naquela noite. Jorge se emocionou em pelo menos dois momentos, lembrando que, mesmo para um artista com uma trajetória tão extensa, a música continua sendo algo vivo, capaz de tocar quem está no palco tanto quanto quem está diante dele. Não é pouca coisa depois de mais de seis décadas de carreira.
Em outro momento, Menina Mulher da Pele Preta trouxe toda a força de sua poesia, acompanhada por O Telefone Tocou Novamente. As canções se encaixam perfeitamente nesse percurso pela obra do compositor, que sempre soube equilibrar lirismo, balanço e uma identidade musical inconfundível.
Jorge Ben Jor tem uma habilidade impressionante para fazer o complexo soar simples. Existe conhecimento, pesquisa, referências e invenção em suas composições, mas nada disso impede que o corpo responda imediatamente ao ritmo. É uma música que convida à reflexão sem exigir imobilidade e que faz dançar sem abrir mão da inteligência.
A sequência avançou com Obá, Lá Vem Ela e, depois, chegou a País Tropical. Foi lindo. Um daqueles momentos em que a dimensão popular da obra de Jorge se manifesta por inteiro. A música, que há tanto tempo faz parte do imaginário nacional, encontrou no estádio uma plateia pronta para celebrá-la. E talvez seja justamente essa a maior qualidade de seu repertório: ele pertence à história da música brasileira, mas também à história afetiva de cada pessoa que cresceu ouvindo suas canções.
Depois, Spirogyra Story deu continuidade à apresentação, seguida por Do Leme ao Pontal, que trouxe à memória o saudoso Tim Maia. Entre um refrão e outro, Jorge fez uma referência ao amigo, dizendo: “Ele tá no céu”, em um momento breve, mas carregado de afeto.
Em seguida, W/Brasil (Chama o Síndico) foi uma viagem direta aos anos 1990. A música carrega a memória de uma época, mas não ficou presa a ela. Continua funcionando como um chamado coletivo, uma dessas composições que dispensam explicações: bastam os primeiros acordes para que o público reconheça a canção e entre no clima.
Foi uma sequência de grandes músicas, uma atrás da outra, mantendo o público envolvido do começo ao fim.
Na sequência, o show voltou a explorar o universo de A Tábua de Esmeralda com Os Alquimistas Estão Chegando aos Alquimistas, seguido por Álcool. A execução reafirmou a singularidade de um repertório que combina referências filosóficas e espirituais a uma musicalidade irresistivelmente envolvente.
A apresentação continuou com uma sequência de clássicos que mostrou a amplitude da obra de Jorge: Zumbi, Bebete Vãobora, Take It Easy My Brother Charlie e Engenho de Dentro. Vieram também Ponta de Lança Africano (Umbabarauma) e Fio Maravilha, reforçando a ligação do compositor com o futebol, a cultura popular e os ritmos que fazem sua música tão reconhecível.
Perto do fim, a apresentação trouxe ainda Quero Toda Noite, Minha Teimosia, Uma Arma pra Te Conquistar e Errare Humanum Est, esta última com uma vibe mantrística, extremamente envolvente. Foi possível perceber que a galera 40+ parecia aproveitar especialmente esse reencontro com músicas que fazem parte de sua memória afetiva. Não era apenas nostalgia: era o reconhecimento de um repertório que ajudou a formar a trilha sonora de diferentes gerações e continua surpreendentemente atual.
Vieram também Mas Que Nada, Chove Chuva e Por Causa de Você, Menina, músicas que remetem às origens de Jorge e ao universo de Samba Esquema Novo. Nesse trecho, ficou evidente a força de composições que atravessaram décadas sem perder a capacidade de envolver o público. A sequência também mostrou como as raízes de sua obra continuam vivas, conectando gerações que talvez tenham conhecido essas canções em épocas muito diferentes.
Então veio Taj Mahal. E, com ela, o começo de um final apoteótico. Tiras de papel colorido foram lançadas sobre o público, enquanto fogos de artifício surgiam da parte superior do estádio, transformando o Nubank Parque em um espetáculo de luzes e cores.
A surpresa ficou por conta da entrada de convidados especiais, entre eles Baby do Brasil, Samuel Rosa e Rael da Rima, além de outros grandes artistas que subiram ao palco para celebrar Jorge. A reta final ainda passou por Curumim Chama Cunhatã Que Eu Vou Contar (Todo Dia Era Dia de Índio), A Banda do Zé Pretinho e Mama África, em uma celebração que ampliou o caráter coletivo daquele encerramento.
A participação dos convidados deu à reta final um sabor de homenagem em vida, algo que ganha um significado ainda maior diante de um artista cuja influência se espalha por tantas gerações da música brasileira.
O estádio estava em festa. O repertório, a banda, os convidados e a resposta do público se encontraram em um encerramento que parecia traduzir tudo o que aquela noite representou.
Jorge Ben Jor demonstrou uma vitalidade impressionante. Não se trata apenas de disposição física, mas da capacidade de sustentar uma identidade artística própria, emocionar uma plateia gigantesca e fazer músicas de diferentes décadas soarem vivas. Poucos artistas conseguem atravessar tantas gerações sem se tornarem reféns da própria nostalgia.
No fim das contas, sair de um show de Jorge Ben Jor é sair diferente de como se entrou. Mais leve, mais disposto a celebrar a vida, mais consciente de que a alegria também pode ser uma forma de resistência.
Jorge é a personificação da alegria brasileira, mas reduzi-lo a isso seria injusto. Ele é também invenção, sofisticação, espiritualidade e um dos compositores mais originais que nossa música já produziu. Sua obra atravessa o tempo porque fala de algo que nunca deixa de ser necessário: a vontade de viver, de amar e de acreditar que o mundo ainda pode ser um lugar melhor.
Naquela noite, no Nubank Parque, diante de um estádio lotado, Jorge Ben Jor não precisou provar sua importância. Ela estava ali, em cada refrão cantado, em cada corpo dançando e em cada sorriso espalhado pelas arquibancadas.
Há artistas que fazem parte da história. Jorge Ben Jor faz parte daquilo que nos mantém vivos dentro dela.
Porque, no universo de Jorge, a alegria não é apenas um sentimento. É uma maneira de existir. E, enquanto sua música continuar ecoando, ainda haverá espaço para a esperança, para o amor e para a certeza de que a vida, apesar de tudo, merece ser celebrada.
Alquimia Popular Brasileira — Jorge Ben Jor | Setlist
Ave Anjos Angeli
Jorge da Capadócia
A Banda do Zé Pretinho
Santa Clara Clareou / Zazueira / A Minha Menina
Que Maravilha / Magnólia / Ive Brussel
Menina Mulher da Pele Preta / O Telefone Tocou Novamente
Obá, Lá Vem Ela
País Tropical / Spirogyra Story
Do Leme ao Pontal
W/Brasil (Chama o Síndico)
Os Alquimistas Estão Chegando aos Alquimistas / Álcool
Zumbi / Bebete Vãobora / Take It Easy My Brother Charlie / Engenho de Dentro
Ponta de Lança Africano (Umbabarauma) / Fio Maravilha
Quero Toda Noite
Minha Teimosia, Uma Arma pra Te Conquistar
Errare Humanum Est
Costa do Marfim
Mas Que Nada / Chove Chuva / Por Causa de Você, Menina
Taj Mahal / Curumim Chama Cunhatã Que Eu Vou Contar (Todo Dia Era Dia de Índio) / A Banda do Zé Pretinho / Mama África
