Redd Kross: a banda favorita das suas bandas favoritas passou por São Paulo

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Redd Kross: a banda favorita das suas bandas favoritas passou por São Paulo

No Cine Jóia, os irmãos McDonald lembraram por que influenciaram gerações inteiras, mesmo longe do estrelato.

por Pedro Silva📷Pedro Silva26 de junho de 2026

Existe uma sensação estranha quando você vai assistir a uma banda que mudou o rumo do rock, mas continua sendo conhecida apenas por quem passou décadas garimpando música.

É como visitar um templo escondido.

Na sexta-feira, saí do trabalho no centro de São Paulo sabendo que apenas três estações de metrô me separavam do Cine Joia e de uma das bandas mais influentes da história do rock alternativo. Ainda enrolei meia hora antes de seguir, esperando a abertura da casa, mas minha cabeça já estava em Los Angeles de 1983.

Tenho dívidas suficientes para justificar voltar direto para casa, sem gastar dinheiro com shows de rock. Mas algumas noites simplesmente custam menos do que o arrependimento de perdê-las.

Chegando ao Cine Joia, na fila havia um pequeno congresso da velha guarda indie brasileira. Camisas de Public Image Ltd., Bad Brains, Sonic Youth, All Stars já cansados de tantos festivais e vendedores oferecendo camisetas piratas surpreendentemente bonitas.

Twinpines abriu a noite

Quem inaugurou os trabalhos foi o Twinpines, quarteto paulista de rock alternativo formado em 2003 que, com certeza, passou anos ouvindo todo aquele indie americano que descobriu que melodias bonitas também podiam soar completamente tortas.

Sem baixista.

Três guitarras.

Bateria.

Um vocalista principal na guitarra, enquanto os outros dois guitarristas se revezavam nos backing vocals. Em vários momentos, os três cantavam juntos pequenos "uh uh uh" que enchiam o ambiente de harmonias inesperadas. Daquelas pequenas explosões sensoriais que justificam sair de casa.

Entre um show e outro

Com o público espalhado pelo Cine Joia, meu irmão que havia acabdo de chegar apontou discretamente para um sujeito conversando do outro lado do salão.

Pela careca, era André Barcinski, um dos idealizadores do show.

Chegamos a cogitar uma aproximação, mas ele estava claramente ocupado, conversando com algumas pessoas. Achamos melhor não interrompê-lo.

Alphawhores veio para esmagar

Se o Twinpines explorava melodias, o Alphawhores chegou para deslocar placas tectônicas.

A dupla do Panamá formada pelos irmãos Massiel Pinzón (vocais e bateria) e Juan Carlos García de Paredes (guitarra e vocais) impressiona pela quantidade absurda de peso produzida por apenas guitarra e bateria.

Imagine se o White Stripes resolvesse abandonar o blues, engolisse um elefante e passasse a tocar stoner rock.

Outra banda sem baixista.

Mas isso só existe no papel.

Na prática, a guitarra soa tão grave que faria muita banda de metal com mais de uma guitarra ter inveja.

Além do peso, havia viagens psicodélicas, texturas que lembravam Jack White e longas construções em marcha lenta, criando uma atmosfera sufocante antes de explodir novamente.

Massiel merece destaque especial.

Sua bateria conduz toda essa dinâmica com naturalidade impressionante.

Finalmente, Redd Kross

Pouco antes do show principal, o Cine Joia começou a mudar de temperatura.

Mais gente chegando.

Figuras conhecidas do rock nacional aparecendo discretamente.

Entre elas, Gabriel Thomaz, dos Autoramas, que participou de festivais internacionais com os irmãos McDonald.

Então as luzes se apagaram.

Jeff McDonald, Steve McDonald, Jason Shapiro e Dale Crover entraram no palco.

A noite pertenceu ao Redd Kross.

Para quem conhece apenas de nome, vale lembrar: os irmãos Jeff e Steve McDonald começaram adolescentes na cena punk de Los Angeles no final dos anos 70, mas logo abandonaram qualquer obrigação estética para misturar glam rock, power pop, punk, hard rock, psicodelia e cultura pop americana numa fórmula que, anos depois, ajudaria a moldar bandas como The Vines, Stone Temple Pilots, Hole, Teenage Fanclub e boa parte do rock alternativo dos anos 90.

Eles nunca venderam milhões de discos.

Mas ajudaram a escrever o manual de muita gente que vendeu.

Abriram com Huge Wonder.

Poucos minutos depois veio Peach Kelli Pop, uma das joias de Neurotica, meu disco favorito da banda. Existe algo naquele álbum - glam, melódico, sujo e completamente deslocado do próprio tempo - que parece antecipar muito do que o grunge faria alguns anos depois.

Em seguida vieram Stay Away From Downtown, recebida com entusiasmo imediato, e Stunt Queen, mostrando que o excelente álbum mais recente conversa naturalmente com os clássicos.

Uglier, com seu refrão repetindo que tudo fica "mais feio a cada dia", parece falar de aparência apenas na superfície. A música carrega conflitos muito maiores do que a estética.

Vestidos de branco, com estampas e detalhes em cores psicodélicas, os quatro pareciam saídos de algum universo paralelo entre o glam rock dos anos 70 e a psicodelia californiana. O visual conversava perfeitamente com a música. Mais do que assistir, a sensação era de ser convidado a dançar livremente, sem coreografia, sem vergonha e sem qualquer preocupação que existisse.

Dois covers apareceram na sequência.

"I'll Blow You a Kiss in the Wind", de Tommy Boyce & Bobby Hart.

"Crazy World", da Frightwig.

Eu não conhecia as versões originais. Fica a lição de casa: pesquisar e conhecer.

Steve McDonald transformava cada intervalo entre músicas num pequeno show de stand-up. Contava histórias, ria, improvisava comentários e mantinha a plateia completamente conectada.

Lady in the Front Row despertou a memória afetiva de quem acompanhou a banda nos anos 90.

Mess Around lembrou que poucas bandas entendem power pop como o Redd Kross.

Quando chegou Annie's Gone, Jeff apareceu com um pano sobre a cabeça e a plateia respondeu cantando junto.

Mas meu ponto máximo veio logo depois.

Neurotica.

Com introdução de bateria.

Talvez porque seja o disco que mais tenho ouvido voltando do trabalho de metrô e ônibus nos últimos meses. Talvez porque certas músicas passem a carregar sentimentos que só aparecem depois de meses convivendo diariamente com elas.

Naquele momento não existia mais expediente.

Nem dívida.

Nem metrô.

Só aquele refrão ecoando dentro do Cine Joia.

Para boa parte do público, entretanto, o auge foi Jimmy's Fantasy.

Faz sentido.

Foi a música que apresentou o Redd Kross para muita gente na época da MTV e ajudou a ampliar enormemente o alcance da banda.

Em determinado momento, Steve comentou, quase lamentando, sobre quando abririam para os Ramones no Brasil, em 1994, e tudo acabou não acontecendo.

O público respondeu com carinho.

Antes do bis ainda veio uma versão monumental de Linda Blair fundida com I Want You (She's So Heavy), dos Beatles.

Palmas.

Coro.

Era exatamente o tipo de comunhão que um grande show de rock precisa produzir.

O bis

O bis parecia uma carta de amor aos primeiros discos.

Vieram Annette's Got the Hits, Cover Band, Clorox Girls, I Hate My School, S & M Party, Standing in Front of Poseur, além dos ótimos covers de Crazy Horses, dos The Osmonds, e Deuce, do Kiss.

Quando as luzes finalmente acenderam, ficou a impressão de que o Redd Kross continua fazendo exatamente o que sempre fez.

Ignorando tendências.

Misturando referências improváveis.

Tocando como uma banda que nunca precisou provar nada para ninguém.

Talvez seja justamente por isso que tantos músicos importantes os tratem como heróis.

Saí do Cine Joia pensando que algumas bandas envelhecem.

Outras simplesmente continuam certas enquanto o resto do mundo leva décadas para alcançá-las. O Redd Kross é uma delas.

Jeff e Steve são caras sensacionais e têm, sem dúvida, uma das melhores vibes do rock.

Setlist

  1. Huge Wonder

  2. Peach Kelli Pop

  3. Stay Away From Downtown

  4. Stunt Queen

  5. Uglier

  6. I'll Blow You a Kiss in the Wind (Tommy Boyce & Bobby Hart cover)

  7. Crazy World (Frightwig cover)

  8. Lady in the Front Row

  9. Mess Around

  10. I'll Take Your Word for It

  11. Candy Coloured Catastrophe

  12. Annie's Gone

  13. Emanuelle Insane

  14. It Won't Be Long (The Beatles cover)

  15. Neurotica (com introdução de solo de bateria)

  16. Switchblade Sister

  17. Jimmy's Fantasy

  18. Linda Blair / I Want You (She's So Heavy)

Bis

  1. Annette's Got the Hits

  2. Cover Band

  3. Clorox Girls

  4. I Hate My School

  5. S & M Party

  6. Standing in Front of Poseur

  7. Crazy Horses (The Osmonds cover)

  8. Deuce (Kiss cover)

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