Depressão Pós-Party (EP)

Dirty Grills · 2026

Depressão Pós-Party (EP)

Dirty Grills transforma ressaca, sarcasmo e fúria em quatro doses de rock no EP Depressão Pós-Party

Garage Rock
por Pedro Silva04 de setembro de 2026

Há bandas que fazem barulho. A Dirty Grills faz questão de incomodar.

Formado em Florianópolis por Jéssica Gonçalves, na guitarra e voz, e Mariel Maciel, na bateria, o duo chega ao terceiro EP, Depressão Pós-Party, com uma identidade que já não precisa de apresentação. São quatro faixas curtas, nervosas e carregadas de distorção, nas quais garage rock, punk, grunge e stoner se encontram sem muita preocupação em pedir licença.

E talvez seja justamente aí que esteja a graça.

Depressão Pós-Party não tenta transformar a Dirty Grills em algo maior, mais sofisticado ou mais palatável. Pelo contrário: o EP confirma que a força da banda está justamente nessa combinação de sujeira, urgência e personalidade. A guitarra de Jéssica ocupa boa parte do espaço com riffs ásperos e fuzz, enquanto a bateria de Mariel funciona como uma espécie de motor desgovernado - pesada quando precisa ser, acelerada quando a música exige e sempre muito presente.

O resultado é um disco feito para ser ouvido alto.

Mas a sujeira sonora não significa falta de cuidado. Gravado em 2025 no Estúdio Aurora, em São Paulo, o EP foi produzido por Carlos Eduardo Freitas e mantém uma sonoridade suficientemente encorpada para revelar os detalhes do duo sem tirar dele aquilo que mais importa: a sensação de que essas músicas poderiam explodir a qualquer momento.

A abertura, “Depressão Pós-Party”, já apresenta a proposta sem rodeios. Com apenas um minuto e meio, a faixa não desperdiça tempo. Guitarra, bateria e vocal entram praticamente em estado de combustão, criando uma espécie de ressaca sonora em que o título deixa de ser apenas uma brincadeira e passa a definir o espírito do trabalho.

Depois vem “Superglue”, mantendo a tensão, mas deslocando o foco para uma dinâmica mais ligada aos relacionamentos. É uma característica interessante do EP: por trás da agressividade existe espaço para situações bastante humanas, e a banda não precisa abandonar o peso para falar delas.

Em “Toque de Recolher na Ilha”, a Dirty Grills aponta a guitarra para outro alvo. A faixa aborda a repressão policial no Centro Leste, em Florianópolis, e talvez seja o momento em que a dimensão punk do duo apareça de maneira mais evidente. A música transforma uma situação concreta da cidade em matéria-prima para um rock urgente, direto e pouco interessado em sutilezas diplomáticas.

“Devido à Turbulência, o Serviço de Bordo Foi Cancelado” fecha o EP mantendo a sensação de movimento. O título, por si só, combina perfeitamente com uma banda que parece trabalhar melhor quando tudo está prestes a sair do eixo.

Existe também algo maior acontecendo aqui.

Jéssica e Mariel acumulam mais de duas décadas de envolvimento com a cena independente catarinense, e essa experiência ajuda a explicar por que o duo consegue soar tão seguro mesmo trabalhando com uma formação mínima. A Dirty Grills nasceu em 2021, durante a pandemia, a partir da amizade e das experiências anteriores das duas. Desde então, a trajetória foi construída no velho esquema independente: tocar, gravar, viajar, divulgar e fazer acontecer.

E aconteceu.

Antes mesmo de completar uma década, a banda já passou por palcos e festivais importantes do circuito independente, incluindo Psicodália, Maratona Cultural, Rock in Rio, Bananada e, em 2026, ainda tem o DoSol pela frente. A presença no Bananada deste ano é particularmente significativa: a banda de Florianópolis aparece ao lado de nomes de diferentes regiões e gerações da música brasileira, mostrando que aquela combinação aparentemente simples de guitarra e bateria encontrou espaço além do circuito local.

Essa ascensão não aconteceu porque a Dirty Grills decidiu suavizar seu som.

Foi justamente o contrário.

Desde Faz teus corre, irmão, de 2022, passando pelo EP Dirty Grills, de 2024, a dupla vem refinando uma linguagem própria. O segundo trabalho já havia sido apontado como um salto de qualidade sonora sem perder a capacidade de reproduzir em estúdio a brutalidade dos shows. Agora, em Depressão Pós-Party, essa identidade parece ainda mais definida.

Até a escolha de cantar em português ajuda nesse processo. Se antes o inglês aparecia com frequência no repertório, o novo EP assume o idioma como parte da personalidade da banda. E funciona justamente porque Jéssica e Mariel não tentam adaptar a energia do duo à língua: é o português que entra no universo barulhento da Dirty Grills.

As referências de Bikini Kill, Heavens to Betsy e Huggy Bear ajudam a localizar a Dirty Grills dentro de uma linhagem, mas a banda já desenvolveu seus próprios códigos. Há também stoner, grunge, garage e noise nessa mistura - e, principalmente, uma experiência de palco que não pode ser capturada por uma etiqueta.

A própria história da dupla mostra isso. Em 2022, a Dirty Grills chegou a assinar contrato para gravação e distribuição de seu primeiro EP sem sequer ter realizado um show. Pouco depois, já estava circulando por diferentes cidades e construindo no palco a reputação que hoje acompanha seu nome.

Depressão Pós-Party é, portanto, menos um ponto de partida do que mais uma confirmação.

A Dirty Grills encontrou uma maneira bastante eficiente de fazer muito com pouco: duas mulheres, uma guitarra, uma bateria e nenhuma necessidade de preencher o silêncio com excesso de produção. A guitarra pode ser suja, a bateria pode atropelar e os vocais podem alternar entre canto, grito, sarcasmo e provocação.

No fim das quatro faixas, fica aquela sensação familiar de quem acabou de levar uma pancada curta e ainda está tentando entender de onde veio.

E talvez esse seja o melhor elogio possível para um EP chamado Depressão Pós-Party.

A festa acabou. A ressaca ficou.

E a Dirty Grills parece estar se divertindo bastante com ela.