
Peaer · 2026
doppelgänger
Sete anos depois, o trio de Brooklyn retorna para confrontar as diferentes versões de si mesmo
Há discos que representam uma ruptura. Outros, uma continuação. doppelgänger, quarto álbum do Peaer, parece habitar um espaço intermediário. Sete anos depois de A Healthy Earth, o trio de Brooklyn retorna com um trabalho que olha para frente sem abandonar as marcas deixadas pelo passado.
Formado em 2014 por Peter Katz, Thom Lombardi e Jeremy Kinney, o Peaer construiu ao longo dos anos uma identidade difícil de enquadrar. Entre o slowcore, o math rock e o indie rock mais introspectivo, suas músicas encontram equilíbrio entre delicadeza e tensão, transformando estruturas pouco convencionais em canções de forte carga emocional.
Parte das composições de doppelgänger atravessou diferentes momentos da vida dos integrantes, amadurecendo em meio às mudanças impostas pelo tempo e pelo período de interrupção causado pela pandemia. Em vez de apresentar uma reinvenção radical, o álbum parece reunir fragmentos de diferentes épocas da banda, aproximando passado e presente em um mesmo conjunto de canções.
Essa dualidade não é novidade na trajetória do grupo. A formação clássica de Peter Katz, combinada à influência da cena punk e da cultura DIY, ajudou a moldar uma abordagem em que precisão e espontaneidade coexistem naturalmente. Ao longo dos anos, referências como David Bazan, Bedhead, The Cure, The Mars Volta e Phil Elverum ajudaram a expandir o horizonte criativo da banda, sem que ela jamais perdesse sua própria identidade.
Musicalmente, doppelgänger amplia elementos já presentes em A Healthy Earth. Melodias sutis, mudanças bruscas de dinâmica e momentos de dissonância convivem em um repertório que se recusa a escolher entre serenidade e inquietação.
Desde the eyes sink into the skull (2014), passando pelo álbum autointitulado de 2016 e por A Healthy Earth (2019), o Peaer vem construindo uma das trajetórias mais discretas - e mais particulares - do indie americano contemporâneo.
Em tempos em que a reinvenção constante parece uma exigência, doppelgänger sugere outra possibilidade: a de que crescer talvez signifique aprender a conviver com todas as versões de nós mesmos.
