Mount Zero

Swapmeet · 2026

Mount Zero

Após Oxalis, Mount Zero confirma que o Swapmeet vai muito além de uma boa primeira impressão

Shoegaze
por Pedro Silva18 de julho de 2026

A cena independente australiana continua produzindo bandas que tratam a nostalgia dos anos 1990 como ponto de partida, não como destino. É nesse contexto que surge Mount Zero, primeiro álbum do quarteto de Adelaide Swapmeet. Depois de conquistar atenção com o EP Oxalis e se tornar a primeira contratação internacional da gravadora norte-americana Winspear, o grupo entrega um trabalho que entende o passado sem se limitar a reproduzi-lo. Entre camadas de guitarras, melodias delicadas e explosões de distorção, a banda constrói uma identidade que parece madura demais para um primeiro disco.

O que diferencia Mount Zero de tantos outros discos que orbitam o shoegaze, o slowcore e o indie rock é a forma como textura e composição caminham juntas. Em vez de usar o ruído como protagonista absoluto, o Swapmeet faz das paredes de guitarra um complemento para canções que permanecem na memória mesmo quando o volume diminui. O fato de os quatro integrantes dividirem funções de composição, produção e vocais amplia ainda mais essa sensação de diversidade, fazendo com que cada faixa apresente nuances próprias sem comprometer a unidade do álbum.

Há um equilíbrio constante entre delicadeza e intensidade. Faixas como "I Know!", "Bonny" e "2 C U" aproximam o ouvinte por meio de melodias luminosas e refrães imediatos, enquanto momentos como "Seeds" e a faixa-título revelam uma banda interessada em desconstruir essas estruturas, alternando passagens acústicas, colagens sonoras e explosões elétricas. O resultado lembra diferentes capítulos do indie rock das últimas décadas, mas nunca soa como simples exercício de nostalgia. As referências aparecem como linguagem, não como muleta.

Existe também um forte componente emocional que atravessa o disco. As letras abordam amizade, juventude, arrependimentos, paixões e as incertezas da vida adulta sem recorrer ao dramatismo excessivo. Muito dessa atmosfera nasce da própria origem do álbum: gravado em uma casa de praia em Port Noarlunga e batizado em homenagem ao Mount Zero, formação montanhosa entre Adelaide e Melbourne que a banda cruzava frequentemente, mas nunca chegou a visitar. A paisagem física acaba funcionando como metáfora para desejos, memórias e possibilidades ainda não alcançadas.

Embora as influências de nomes como Pavement, Sonic Youth, Big Thief, Yo La Tengo e Smashing Pumpkins sejam perceptíveis, o Swapmeet evita a armadilha de transformar suas referências em imitação. O disco alterna momentos acessíveis com passagens experimentais, preservando uma espontaneidade rara em estreias. Talvez seja justamente essa confiança em explorar contrastes - entre silêncio e ruído, folk e distorção, intimidade e grandiosidade - que faça Mount Zero soar como o começo de algo maior do que apenas um bom primeiro álbum.

Em um momento em que muitos discos parecem excessivamente preocupados em encontrar um nicho, Mount Zero prefere expandir possibilidades. É um trabalho que conversa com o passado do rock alternativo sem abrir mão de olhar para frente, posicionando o Swapmeet como um dos nomes mais promissores da nova geração australiana. Se este álbum representa apenas o primeiro capítulo da banda, há motivos suficientes para acreditar que sua trajetória ainda tem muito a oferecer.

Mount Zero — Unglued