
Horney — Anti-Raso (2026)
Anti-Raso (EP)
Horney transforma inquietação em combustível no EP Anti-Raso!
Poucas bandas conseguem mudar de idioma sem parecer que estão apenas trocando palavras. A Horney faz justamente o contrário. Ao abraçar o português, o quarteto de Joinville não apenas aproxima sua música do público brasileiro, mas encontra uma identidade mais madura, direta e emocional. O EP Anti-Raso soa como um ponto de virada na trajetória da banda.
Se o primeiro trabalho buscava referências no rock alternativo dos anos 90 e no indie internacional, agora tudo parece convergir para uma personalidade própria. As influências continuam presentes, mas deixaram de ocupar o centro do palco. O protagonismo pertence às composições e, principalmente, à interpretação de Duda Maiolini.
A vocalista entrega a melhor performance da carreira. Sua voz transita naturalmente entre fragilidade, revolta, esperança e afeto, sempre com convicção. Cada música pede uma abordagem diferente, e Duda entende exatamente quando deve soar íntima, intensa ou acolhedora. É o elo que conecta todas as faixas do EP.
OFF!
A faixa-título abre o trabalho com urgência. Baixo e bateria conduzem uma base pulsante enquanto as guitarras aparecem com peso e presença, sustentando uma progressão de acordes que cresce de forma orgânica. É uma música dinâmica, que nunca estaciona no mesmo lugar.
Liricamente, "OFF!" é uma crítica ao estado de anestesia coletiva em que vivemos. A repetição de "eles querem mais, se alimentam da nossa distração" sintetiza a sensação de uma sociedade constantemente disputada por algoritmos, publicidade e estímulos vazios. O trecho "vou te vender um remédio, fiz um vídeo lindo só pra enganar você" amplia esse comentário ao transformar o consumo da atenção em personagem da narrativa.
O refrão é daqueles que permanecem na cabeça justamente porque dialoga com um sentimento contemporâneo: desligar-se do mundo parece resistência, mas também pode ser acomodação. A música não oferece respostas fáceis - prefere provocar.
Quebra Cabeça
Com participação de Dani Buarque (The Mönic), "Quebra Cabeça" explora novas texturas sem perder a identidade rock da banda. Elementos eletrônicos aparecem de forma discreta, enriquecendo uma estrutura que alterna momentos contemplativos com explosões de guitarras.
Há ecos de bandas como Bullet Bane e até do Panic! At The Disco da fase mais rock, principalmente na dinâmica entre versos introspectivos e refrões mais intensos. Mas a comparação termina aí. A Horney usa dinâmicas nesse estilo apenas como ponto de partida para construir algo próprio.
A letra mergulha na ansiedade, na autocobrança e na dificuldade de escapar das armadilhas mentais. O espelho surge como metáfora constante para uma identidade fragmentada, enquanto a música cresce em intensidade acompanhando o conflito interno descrito nos versos.
Mergulhar
É provavelmente a faixa mais surpreendente do EP.
A introdução intimista lembra a delicadeza da MPB contemporânea, evocando artistas como Bebel Gilberto pelo clima leve e contemplativo. Aos poucos, porém, a música se transforma em um pop rock psicodélico de harmonias amplas e extremamente agradáveis.
Existe um frescor raro em "Mergulhar". A composição transmite sensação de movimento, como se acompanhasse literalmente a correnteza mencionada na letra. O convite para desafiar placas, medos e certezas transforma a música em uma celebração do risco emocional.
É também o momento em que Duda Maiolini mais evidencia sua versatilidade vocal, conduzindo uma interpretação delicada sem perder intensidade.
Romântica
Fechando o EP, "Romântica" apresenta a Horney em sua faceta mais descontraída, sem abrir mão da personalidade construída ao longo do disco. A introdução pode remeter à irreverência de Rita Lee e ao minimalismo pop de Billie Eilish, mas essas referências logo cedem espaço à identidade da banda.
A música cresce de forma gradual. As guitarras ganham peso e passam a pontuar a composição com cada vez mais presença, enquanto a cozinha mantém um rock firme e pulsante. No meio do caminho, um groove marcado por linhas de baixo em slap quebra a expectativa antes da entrada de um solo de guitarra que fecha o arranjo com naturalidade.
A letra brinca com o contraste entre romantismo e os relacionamentos descartáveis da contemporaneidade. O refrão - "Ai de mim que sou romântica no século da putaria" - resume esse conflito com humor, ironia e honestidade, transformando uma frase de impacto em um comentário sobre os afetos na era das conexões superficiais. É um encerramento leve na forma, mas certeiro na mensagem, reforçando a capacidade da Horney de equilibrar crítica, vulnerabilidade e boas melodias.
Uma nova fase
Mais do que um conjunto de quatro músicas, ANTI-RASO! representa a consolidação de uma nova Horney.
A escolha pelo português não diminui o alcance da banda - amplia sua capacidade de comunicação. As letras ganham impacto imediato, enquanto a instrumentação demonstra uma evolução perceptível na composição e nos arranjos.
O resultado é um EP que dialoga com o rock alternativo contemporâneo, mas sem abrir mão de melodias fortes, refrões memoráveis e reflexões sobre um mundo cada vez mais acelerado e distraído.
Se este trabalho servir como indicação do caminho que a Horney pretende seguir daqui para frente, há motivos suficientes para acompanhar de perto os próximos capítulos dessa história.
