Izzy Wizzy Let’s Get Busy

Luke Haines — Izzy Wizzy Let’s Get Busy (2026)

Izzy Wizzy Let’s Get Busy

Luke Haines transforma a estranheza da televisão infantil britânica em um álbum de humor ácido, referências obscuras e atmosfera fascinante.

NOVO
7.5/ 10
Art PopIndie RockExperimental
por Pedro Silva12 de julho de 2026

Luke Haines nunca foi um artista interessado em seguir caminhos previsíveis. Em Izzy Wizzy Let's Get Busy, seu mais novo trabalho, ele volta a provar que a cultura pop pode servir como matéria-prima para algo muito mais inquietante do que simplesmente nostalgia.

Essa abordagem não é novidade em sua carreira. Antes de consolidar sua trajetória solo, Haines já havia se firmado como uma das figuras mais peculiares do rock alternativo britânico. Foi o principal compositor e líder do The Auteurs, banda que ajudou a moldar o cenário indie dos anos 1990 e teve seu álbum de estreia indicado ao Mercury Prize. Também esteve à frente dos projetos Baader Meinhof e Black Box Recorder, este último ao lado de Sarah Nixey e John Moore (ex-The Jesus and Mary Chain).

Nos últimos anos, passou a desenvolver uma parceria criativa com Peter Buck, guitarrista e cofundador do R.E.M., com quem lançou os álbuns Beat Poetry for Survivalists (2020), All the Kids Are Super Bummed Out (2022) e Going Down To The River... To Blow My Mind (2025). Ao longo das últimas décadas, Haines construiu uma discografia marcada por álbuns conceituais, humor mordaz e uma visão bastante singular da cultura britânica.

Em Izzy Wizzy Let's Get Busy, o ponto de partida é curioso: a televisão infantil britânica das décadas de 1960 e 1970. Em vez de celebrar esses programas com um olhar saudosista, Haines investiga o lado estranho, quase perturbador, desse universo. Mágicos, ilusionistas, personagens de programas infantis, superstição e referências ao ocultismo aparecem como peças de um quebra-cabeça que questiona como o imaginário de uma geração foi moldado por figuras aparentemente inocentes.

Essa ideia atravessa todo o álbum. As canções funcionam como pequenos capítulos de uma narrativa repleta de humor ácido, ironia e referências culturais muito específicas do Reino Unido. Mesmo quando o ouvinte não reconhece todos os personagens citados, a atmosfera construída é suficiente para transmitir a sensação de que existe algo desconfortável escondido atrás das lembranças da infância.

Musicalmente, Izzy Wizzy Let's Get Busy segue a cartilha que Haines aperfeiçoou ao longo da carreira. As faixas são enxutas, sustentadas por guitarras diretas, teclados discretos e arranjos minimalistas que deixam espaço para sua característica interpretação quase falada. Não há preocupação em criar grandes refrões ou momentos grandiosos; o foco está na narrativa e na construção de um clima que oscila entre o absurdo, o humor e o mistério.

Essa simplicidade funciona a favor do conceito. O álbum nunca tenta competir pela grandiosidade sonora. Pelo contrário, sua força está justamente em parecer uma coleção de histórias estranhas contadas por alguém que conhece profundamente o lado mais peculiar da cultura britânica.

Ao mesmo tempo, esse também é o principal desafio do álbum. Grande parte das referências é extremamente local e pode passar despercebida para quem não está familiarizado com a televisão e o entretenimento britânicos do século passado. Ainda assim, mesmo sem captar todas as camadas, é possível apreciar o talento de Haines em transformar fatos culturais aparentemente banais em uma experiência criativa e bastante singular.

Izzy Wizzy Let's Get Busy dificilmente será o álbum mais acessível da discografia de Luke Haines, mas talvez seja um dos que melhor representam sua personalidade artística. É um trabalho que prefere provocar curiosidade a oferecer respostas, substituindo a nostalgia por uma investigação bem-humorada sobre o estranho fascínio exercido pela cultura popular.

Mais um capítulo da coleção de excentricidades de Luke Haines, reafirmando que ainda há espaço para artistas que desafiam convenções sem abrir mão da própria identidade.